sexta-feira, janeiro 09, 2004

A autoridade científica da Dona Rosa era indiscutível. Até ouvi a minha mãe dizer-lhe: “Dê-lhe um puxão de orelhas se ele se portar mal”. Uma vez que os meus apêndices eram afiançados desta maneira pela própria progenitora então eu deveria saber que da boca daquela professora primária só poderia sair a indiscutível verdade. Contudo partilhei com a classe os risos e o escancarar de boca quando a senhora nos revelou que, tal como os cães, ursos e gaivotas, nós, pessoas, somos animais. As palavras “racional” e “irracional” foram pequenos pormenores que se seguiram, não fazendo esquecer a novidade que, por caturrice, lá fazia ladrar um ou outro.
Os meus pais não voltariam a confiar tanto as minhas orelhas a outro mestre e talvez por isso fiz o mesmo com os ouvidos.
No decorrer dos estudos as marcas dos bancos de igreja nas minhas costas transformavam-se em feridas de carne-viva cada vez que me indicavam o parentesco simiesco. O nada fazia “BUM!”, aliás “bang”, aliás “BANG!”, daí tudo surgia: a pouco e pouco macacos, a pouco e pouco esses levantavam-se , a pouco e pouco ensinavam História e Biologia...mas feridas não tardariam a sarar se o sangue fosse mais espesso que a equação química da água.
Vou ao cerne da questão: Quem é Homo Sapiens Sapiens levante o braço. Eu permaneço com as mãos no teclado, mas aceito uma designação científica se ao Homo Sapiens Sapiens me ajudarem a latinizar o termo “espiritual” (Homo Sapiens Sapiens Spiritualis??). É a partir exactamente deste ponto que passo a acreditar numa teoria da evolução e, sem falsas modéstias, assumo que estou no último patamar desse desenvolvimento.
Clarifico que não sou um detractor da Ciência. Acredito nela e aceito todas as suas “teorias”, sobretudo porque essa palavra carrega sempre algo de inconclusivo, falível e contestável. A Ciência preenche, de facto, o animal racional, mas não belisca convicções quando prefiro acreditar que o Homem vem do homem e este do pó. Para quê contestá-lo? Não necessito dos factos científicos para preencher lacunas na minha Fé e muito menos da Fé para preencher qualquer coisa que sinta falhar na Ciência - são coisas que não associo directamente porque a esfera do espírito engole superiormente todas as outras como uma anaconda insaciável. Pela Fé sei o que é a Verdade; a Ciência só me faz saber o que é factual.
Descartando ou não ligações denominacionais ao termo, sou um animal evangélico,o tal que (e exponho-o na obrigatória humildade) está um passo à frente do homem comum ao adquirir a visão espiritual. Esse espírito, há que denotar, não é o quase dissecável pela filosofia, limitado num conhecimento meramente introspectivo, mas antes aquele que nos revela a Criação, porque foi enviado pelo Criador e é ele próprio o Criador. Confusos? Se for o caso, não é de estranhar mas de preocupar. Paulo explicava-o:
“Uma pessoa que não tenha o Espírito de Deus não pode compreender as coisas que o Espírito Santo nos ensina. Parece-lhe loucura, pois que só pelo Espírito Santo se podem perceber. Uma pessoa espiritual tem a percepção de todas as coisas, mas os que são deste mundo não podem entendê-las. Como poderiam? Porque «Quem seria capaz de conhecer os pensamentos do Senhor, de ser seu conselheiro?» Mas nós compreendemos estas coisas porque temos a mente de Cristo.” (I Coríntios 2:14-16).
Samuel Úria