sexta-feira, maio 14, 2004

[Sem título]
Muitos cristãos dos primeiros séculos caminharam para a arena acusados de ateísmo. Tal situação pode parecer absurda para nós, que vivemos num contexto social influenciado pelo Cristianismo. De facto, a evocação de Deus está presente a cada passo dos ensinos de Jesus e da pregação dos Apóstolos. Mais: o próprio Cristo assumiu um estatuto divino perante os seus seguidores. Como podem então tantos homens e mulheres terem sido conduzidos ao suplício em nome de uma doutrina, o ateísmo, que visivelmente não abraçavam?
A questão não tem tanto a ver com a dúvida ou negação da existência divina, mas sobretudo com a sua pluralidade. Os primeiros cristãos negavam-se a reconhecer qualquer outro deus, incluindo o imperador. Eram radicalmente exclusivistas. E essa posição, num mundo dominado pelo politeísmo, abria todas as portas aos problemas e às incompreensões. Mas, apesar da intransigência, eles não desistiam de tentar esclarecer quem os perseguia (como, por exemplo, Atenágoras, na "Súplica pelos cristãos"). No entanto, assumindo até às últimas consequências a sua fidelidade ao Deus único, para eles importava, acima de tudo, limpar qualquer dúvida quanto à singularidade do Ser que adoravam.
Hoje, quase vinte séculos passados, o exemplo desses pioneiros continua actual. É certo que em Portugal não corremos o risco de tortura ou morte por afirmar que só há um Deus e que o único caminho para Ele se chama Jesus Cristo. Permanece, no entanto, a conotação subversiva. O discurso da tolerância e do ecumenismo, baseado na premissa de que todas as religiões possuem um pedaço da verdade divina, reage mal, como reagia o politeísmo do império, à mensagem da exclusividade. Podemos asseverar o nosso amor à liberdade de consciência e o respeito pela experiência e tradição de outros povos e culturas. De pouco vale. Os rótulos colam-se depressa aos que não vão na corrente. Antes seríamos "ateus", agora somos "fundamentalistas" e "intolerantes".
O Evangelho sempre foi incómodo. Para quem o ouve e para quem o vive e prega. Tal como aqueles cristãos perseguidos, os cristãos de hoje são convocados para a fidelidade. A mensagem é importante demais para que possa ser negociada, obliterada ou transformada em figura de estilo. Só há um Deus, e Jesus Cristo constitui o único caminho até Ele. Tudo o que ensombre esta clareza não vale a pena.
Pedro Leal