“Kill Bill - vol I”
Um autor de banda desenhada que aprecio particularmente usa com frequência uma estratégia narrativa que, enquanto leitor satisfeito, acho impecavelmente eficaz. A abordagem é quase pleonástica: a empatia que geramos com as personagens coincide com o sofrimento delas. O autor pega nos protagonistas e leva-os ao Inferno. Destrói-lhes a vida, fere-os gravemente, retira-lhes os bens e a família, amachuca-lhes a honra e a dignidade. No entanto a ficção nos livros é capaz de muitas maravilhas. Uma delas permite-nos, pelo número de páginas que faltam, adivinhar que aquilo não vai ficar assim.
Subsiste a dúvida, ou a contenda, quanto à factualidade do livro de Job. Não é uma questão que me apeteça aflorar agora, mas admito que não me escandaliza existir “ficção divinamente inspirada”. Em qualquer dos casos nunca ponho em causa a mão de Deus por detrás desse livro. Seja d’Ele ou de um poeta usado por Ele, a história do malogrado Job jornadeia pelo mesmo tortuoso comboio descendente onde embarcam os personagens do autor de BD com que comecei. Mas o apeadeiro de destino é muito diferente. Quando estou lá em baixo com Job, ferido, despojado e doente, continuo a leitura preso na inacreditável perseverança, admirado com a sobre-humana persistência. Viro a página inspirado num exemplo demasiado santo para conseguir identificar-me. Quando mergulho na desesperança da história aos quadradinhos, vejo que há decididamente uma vitória nas folhas que ainda faltam ler, mas, tal como o personagem principal, o que me faz virar a página é a grotesca e muito humana sede de vingança. Na negrura das vinhetas, deliciamo-nos com as sangrentas “vendetas”.
De mim podem-se esperar as mais básicas conclusões. “O Homem é vingativo, a vingança é má e o Homem precisa perder essa sua natureza” poderia equacionar tudo o que venha a dizer. Contudo, se há alguma coisa que aprendi com os filósofos que me “interessam” é que, em abordagens de certos conceitos referentes ao “Homem”, equacionar com lógica e pragmatizar é tudo o que não se deve fazer de rajada. Agrado então aos comedores de letras e não me fico já aqui.
Disse-me um professor que uma boa obra artística cinematográfica tem que dar “um bocadinho de sono”. Continuava os seus pensamentos referindo que o indicador da nossa maturidade pode-se fixar no facto de sermos capazes de gostar genuinamente de um filme em que se “safem os maus e morram os bons”. Talvez neste último caso a referência estivesse na capacidade de abstracção da história, aplaudindo o filme pela sua estrutura e valor estético. Também posso entender que a análise artística de uma película revela maturidade quando é feita à margem dos princípios e gostos não “academizados” de quem a faz. Pessoalmente apreendi que é necessário fiscalizarmos a nossa ira contra injustiças - precisamos ser suficientemente maturos para não perdermos tempo a consumirmo-nos com preocupações advindas da ficção, mas, por outro lado e mais importante, não podemos mascarar, de moral irritada pela injustiça, a fatídica avidez vingativa. Não há nada de moral nesta vindicta. Não há nada de moral no desejo de sermos carrascos de pescoços que nunca podem ser designados para o nosso machado.
“Minha é a Vingança”, diz o Senhor. Nem que fosse eu o mais santo dos santos a poderia menear levemente. E se aludo a santidade, fico pasmado com o apóstolo Paulo que por vezes parece querer vingar-se de si próprio. Ao mesmo tempo que recebe a alegria da Graça, o homem conhecido antes por Saulo parece definhar por não lhe ser autorizado exorcizar, seja pela Lei ou qualquer sacrifício, o trágico passado de perseguidor, o ódio que nutria por Cristo, os olhos de Estêvão a perderem a vida. Numa noção de honra que nos transcende, o mais difícil de amar para o apóstolo era a sua própria pessoa; a cabeça mais difícil de não cortar, de abster do sacrifício sanguinolento, era a sua. Mas a Graça, afinal, bastou-lhe. Os “sacrifícios vivos, santos e agradáveis a Deus” bastaram-lhe. Ainda assim, ao contrário de qualquer BD, esse Paulo não entra em cabines telefónicas para mudar de roupas e sair a voar com os seus super-poderes (quanto muito fazia esta símile na transformação de Saulo em Paulo). O apóstolo padecia da mesma pestilenta humanidade que nós. Entenda-se, evidentemente, no sentido de condição humana e não no de altruísmo ou caridade, este conceito de humanidade. Mas a de Paulo estava lá, transcendida de maneira a esbofetear-nos de cada vez que a vingança nos leva a melhor. Transcendida também para cuspir no chão de cada vez que o sacrifício se confunde com desagradáveis tarefas, joelhos em sangue, penosas peregrinações réprobas.
Sou demasiado deambulante nos meus textos para conseguir fixar-me num tema. Por essa razão chego ao fim do limite mais ou menos imposto de linhas sem dissecar algumas coisas que pretendia sob esta alçada da vingança. Dada a razão, é provável que noutro dia retome a temática, prometendo-me maior concisão e menor dispersão. Até lá, entre outras coisas aguardo que a sequela do “Kill Bill – A vingança” chegue aos cinemas. A Uma Thurman de fato amarelo justo é uma figura no mínimo interessante. Mesmo assim o Job ainda é o maior!
Samuel Úria
sexta-feira, fevereiro 13, 2004
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O Correio Animal
[Reacção incluída no blogue Renas e Veados a 12 de Janeiro de 2004]
Confesso que começo a ficar verdadeiramente intolerante e enojado com os homófobos. Cada vez mais me convenço que tudo não passa de uma fortíssima carência anal. Afinal o ânus dos heterossexuais não é diferente do dos gays, simplesmente é quase sempre vítima de uma total ausência de estímulos sexuais.. isto leva naturalmente a frustrações e carências, que na sua forma colectiva e agrupada torna-se especialmente triste e lamentável, confirme-se.
De uma vez por todas senhores homófobos, não é preciso ser gay para se gostar e praticar sexo anal, basta alguma imaginação e uma companheira dedicada. Irra!
Boss
Estimado Boss,
A sua acusação de homofobia merece reflexão. Não creio que o seja. Se por homofobia entende um “medo de homossexuais”, no sentido em que algumas pessoas sofrem de aracnofobia, e por isso fogem com medo de aranhas, não penso que seja esse o meu caso. Se entende que significa “aversão a homossexuais” ainda mais reitero a minha inocência. Todos os meses me entrego às mãos experientes do meu cabeleireiro, que é um amigo e é homossexual. Não o trato com paternalismos, nem como um animal raro, tipo: “é tão chique ter um cabeleireiro homossexual” (ai de quem lhe chamar barbeiro, ele fica bravo!). Mas, não posso deixar de discordar com a orientação sexual dos homossexuais. Todavia, isso não me leva a ter-lhes aversão. Eu não concordo com a traição, mas não tenho aversão a traidores. Nem tenho aversão a políticos por discordar do “tachismo” deles.
Quanto às “carências anais”, não sei que lhe diga. No meu caso, estou mais nas “inocências anais”. E a minha “companheira dedicada e com imaginação” que sugere está em conversações comigo sobre este aspecto. Estão abertas as hostilidades e inauguradas as brincadeiras sexuais cá em casa.
Espero que embora tenhamos iniciado a nossa conversa num patamar pouco amistoso, me dê o benefício da dúvida, acreditando que estou de boa fé, e vendo nas minhas palavras um valor facial. Os vários links que sugeriu (e que vêm no seu blog que eu sigo atentamente) têm sido um mundo de descobertas estéticas e semânticas, para mim.
Animalescamente
Samuel Nunes
O Correio Animal
[Reacção incluída no blogue Renas e Veados a 12 de Janeiro de 2004]
Confesso que começo a ficar verdadeiramente intolerante e enojado com os homófobos. Cada vez mais me convenço que tudo não passa de uma fortíssima carência anal. Afinal o ânus dos heterossexuais não é diferente do dos gays, simplesmente é quase sempre vítima de uma total ausência de estímulos sexuais.. isto leva naturalmente a frustrações e carências, que na sua forma colectiva e agrupada torna-se especialmente triste e lamentável, confirme-se.
De uma vez por todas senhores homófobos, não é preciso ser gay para se gostar e praticar sexo anal, basta alguma imaginação e uma companheira dedicada. Irra!
Boss
Estimado Boss,
A sua acusação de homofobia merece reflexão. Não creio que o seja. Se por homofobia entende um “medo de homossexuais”, no sentido em que algumas pessoas sofrem de aracnofobia, e por isso fogem com medo de aranhas, não penso que seja esse o meu caso. Se entende que significa “aversão a homossexuais” ainda mais reitero a minha inocência. Todos os meses me entrego às mãos experientes do meu cabeleireiro, que é um amigo e é homossexual. Não o trato com paternalismos, nem como um animal raro, tipo: “é tão chique ter um cabeleireiro homossexual” (ai de quem lhe chamar barbeiro, ele fica bravo!). Mas, não posso deixar de discordar com a orientação sexual dos homossexuais. Todavia, isso não me leva a ter-lhes aversão. Eu não concordo com a traição, mas não tenho aversão a traidores. Nem tenho aversão a políticos por discordar do “tachismo” deles.
Quanto às “carências anais”, não sei que lhe diga. No meu caso, estou mais nas “inocências anais”. E a minha “companheira dedicada e com imaginação” que sugere está em conversações comigo sobre este aspecto. Estão abertas as hostilidades e inauguradas as brincadeiras sexuais cá em casa.
Espero que embora tenhamos iniciado a nossa conversa num patamar pouco amistoso, me dê o benefício da dúvida, acreditando que estou de boa fé, e vendo nas minhas palavras um valor facial. Os vários links que sugeriu (e que vêm no seu blog que eu sigo atentamente) têm sido um mundo de descobertas estéticas e semânticas, para mim.
Animalescamente
Samuel Nunes
Irmão Tiago,
aguardo sempre, com expectativa, a sexta para ler os " Animais ..." no entanto não posso estar mais em DESACORDO contigo sobre este assunto. Eu não me vejo a pedir aconselhamento pastoral para saber se posso ler o "Kamasutra" ou se havemos de usar chicote e cabedais porque penso que é um assunto que só aos casados diz respeito, mas agora que a ética sexual cristã não seja matéria de púlpito?????? Então o que é que é matéria de púlpito?!?! (...) Onde está a nossa missão profética????? Repara que eu hoje já não deliro com a pulseirinha " WWJD " mas já houve tempo em que fiquei cheio de inveja de não ter uma também (...).
Mas por que será que nós nos calamos e recusamos-nos a testemunhar sobre a Cosmovisão Cristã , em todas as áreas da vida humana, e esta evidentemente é tão apelativa (...)? Ademais o que é que nos tem a ensinar o exemplo da Igreja de Corinto? Eu, de facto, só quero ser discípulo de JESUS e de mais nada ou mais ninguém. Dizes com verdade que ninguém é mais santo por não ter dado "uma queca" antes de casar. Mas Jesus também cá andou e deixou-nos um exemplo de santidade que devemos seguir e a ele, somente, prestamos contas (...).
David Emanuel da Silva Cameira
Caro David,
em bom dia te respondo - terminei a leitura do "Ensaio sobre o amor humano" de Jean Guitton, que desde já recomendo.
Com o texto de há três semanas queria deixar claro o meu desagrado com a forma amputada com que os evangélicos pegam no corpo da castidade. Como era visível nas minhas linhas, a virgindade parece-me uma questão de bom-senso. E dificilmente entendo o trabalho pastoral sem ele. Nessa matéria a frase que dizia que não era matéria de púlpito é retórica ao serviço da ideia. Lamento que tantos evangélicos, tão acostumados a contorcionismos apologéticos para prevenir que as Escrituras não amachuquem as suas elaboradas concepções teológicas, percam a elasticidade para todos os outros escritos.
Porque gosto de usar a cosmovisão cristã por dentro das calças considero que devemos ser mais lentos a desfraldar bandeiras. Custa-me a redução que se faz da castidade à ausência de cópula. Só uma visão tão estreita de um valor espiritual nos pode transferir o perigoso sentimento de virtude própria.
Os adolescentes evangélicos pouco precisam do Manual Para A Sobrevivência À Penetração Fortuita. Se os ensinarmos a sobreviver sem telemóvel já será um subsídio valioso contra uma perspectiva tão material e ensimesmada da existência. Quando se quer vender a virgindade aos adolescentes como se fosse um novo toque polifónico, há que ter cuidado. Não vamos nós ficar sem rede.
Tiago de Oliveira Cavaco
aguardo sempre, com expectativa, a sexta para ler os " Animais ..." no entanto não posso estar mais em DESACORDO contigo sobre este assunto. Eu não me vejo a pedir aconselhamento pastoral para saber se posso ler o "Kamasutra" ou se havemos de usar chicote e cabedais porque penso que é um assunto que só aos casados diz respeito, mas agora que a ética sexual cristã não seja matéria de púlpito?????? Então o que é que é matéria de púlpito?!?! (...) Onde está a nossa missão profética????? Repara que eu hoje já não deliro com a pulseirinha " WWJD " mas já houve tempo em que fiquei cheio de inveja de não ter uma também (...).
Mas por que será que nós nos calamos e recusamos-nos a testemunhar sobre a Cosmovisão Cristã , em todas as áreas da vida humana, e esta evidentemente é tão apelativa (...)? Ademais o que é que nos tem a ensinar o exemplo da Igreja de Corinto? Eu, de facto, só quero ser discípulo de JESUS e de mais nada ou mais ninguém. Dizes com verdade que ninguém é mais santo por não ter dado "uma queca" antes de casar. Mas Jesus também cá andou e deixou-nos um exemplo de santidade que devemos seguir e a ele, somente, prestamos contas (...).
David Emanuel da Silva Cameira
Caro David,
em bom dia te respondo - terminei a leitura do "Ensaio sobre o amor humano" de Jean Guitton, que desde já recomendo.
Com o texto de há três semanas queria deixar claro o meu desagrado com a forma amputada com que os evangélicos pegam no corpo da castidade. Como era visível nas minhas linhas, a virgindade parece-me uma questão de bom-senso. E dificilmente entendo o trabalho pastoral sem ele. Nessa matéria a frase que dizia que não era matéria de púlpito é retórica ao serviço da ideia. Lamento que tantos evangélicos, tão acostumados a contorcionismos apologéticos para prevenir que as Escrituras não amachuquem as suas elaboradas concepções teológicas, percam a elasticidade para todos os outros escritos.
Porque gosto de usar a cosmovisão cristã por dentro das calças considero que devemos ser mais lentos a desfraldar bandeiras. Custa-me a redução que se faz da castidade à ausência de cópula. Só uma visão tão estreita de um valor espiritual nos pode transferir o perigoso sentimento de virtude própria.
Os adolescentes evangélicos pouco precisam do Manual Para A Sobrevivência À Penetração Fortuita. Se os ensinarmos a sobreviver sem telemóvel já será um subsídio valioso contra uma perspectiva tão material e ensimesmada da existência. Quando se quer vender a virgindade aos adolescentes como se fosse um novo toque polifónico, há que ter cuidado. Não vamos nós ficar sem rede.
Tiago de Oliveira Cavaco
Irm?o Tiago,
aguardo sempre, com expectativa, a sexta para ler os " Animais ..." no entanto n?o posso estar mais em DESACORDO contigo sobre este assunto. Eu n?o me vejo a pedir aconselhamento pastoral para saber se posso ler o "Kamasutra" ou se havemos de usar chicote e cabedais porque penso que ? um assunto que s? aos casados diz respeito, mas agora que a ?tica sexual crist? n?o seja mat?ria de p?lpito?????? Ent?o o que ? que ? mat?ria de p?lpito?!?! (...) Onde est? a nossa miss?o prof?tica????? Repara que eu hoje j? n?o deliro com a pulseirinha " WWJD " mas j? houve tempo em que fiquei cheio de inveja de n?o ter uma tamb?m (...).
Mas por que ser? que n?s nos calamos e recusamos-nos a testemunhar sobre a Cosmovis?o Crist? , em todas as ?reas da vida humana, e esta evidentemente ? t?o apelativa (...)? Ademais o que ? que nos tem a ensinar o exemplo da Igreja de Corinto? Eu , de facto , s? quero ser disc?pulo de JESUS e de mais nada ou mais ningu?m. Dizes com verdade que ningu?m ? mais santo por n?o ter dado "uma queca" antes de casar. Mas Jesus tamb?m c? andou e deixou-nos um exemplo de santidade que devemos seguir e a ele, somente, prestamos contas (...).
David Emanuel da Silva Cameira
Caro David,
em bom dia te respondo - terminei a leitura do "Ensaio sobre o amor humano" de Jean Guitton, que desde j? recomendo.
Com o texto de h? tr?s semanas queria deixar claro o meu desagrado com a forma amputada com que os evang?licos pegam no corpo da castidade. Como era vis?vel nas minhas linhas, a virgindade parece-me uma quest?o de bom-senso. E dificilmente entendo o trabalho pastoral sem ele. Nessa mat?ria a frase que dizia que n?o era mat?ria de p?lpito ? ret?rica ao servi?o da ideia. Lamento que tantos evang?licos, t?o acostumados a contorcionismos apolog?ticos para prevenir que as Escrituras n?o amachuquem as suas elaboradas concep??es teol?gicas, percam a elasticidade para todos os outros escritos.
Porque gosto de usar a cosmovis?o crist? por dentro das cal?as considero que devemos ser mais lentos a desfraldar bandeiras. Custa-me a redu??o que se faz da castidade ? aus?ncia de c?pula. S? uma vis?o t?o estreita de um valor espiritual nos pode transferir o perigoso sentimento de virtude pr?pria.
Os adolescentes evang?licos pouco precisam do Manual Para A Sobreviv?ncia ? Penetra??o Fortuita. Se os ensinarmos a sobreviver sem telem?vel j? ser? um subs?dio valioso contra uma perspectiva t?o material e ensimesmada da exist?ncia. Quando se quer vender a virgindade aos adolescentes como se fosse um novo toque polif?nico, h? que ter cuidado. N?o vamos n?s ficar sem rede.
Tiago de Oliveira Cavaco
aguardo sempre, com expectativa, a sexta para ler os " Animais ..." no entanto n?o posso estar mais em DESACORDO contigo sobre este assunto. Eu n?o me vejo a pedir aconselhamento pastoral para saber se posso ler o "Kamasutra" ou se havemos de usar chicote e cabedais porque penso que ? um assunto que s? aos casados diz respeito, mas agora que a ?tica sexual crist? n?o seja mat?ria de p?lpito?????? Ent?o o que ? que ? mat?ria de p?lpito?!?! (...) Onde est? a nossa miss?o prof?tica????? Repara que eu hoje j? n?o deliro com a pulseirinha " WWJD " mas j? houve tempo em que fiquei cheio de inveja de n?o ter uma tamb?m (...).
Mas por que ser? que n?s nos calamos e recusamos-nos a testemunhar sobre a Cosmovis?o Crist? , em todas as ?reas da vida humana, e esta evidentemente ? t?o apelativa (...)? Ademais o que ? que nos tem a ensinar o exemplo da Igreja de Corinto? Eu , de facto , s? quero ser disc?pulo de JESUS e de mais nada ou mais ningu?m. Dizes com verdade que ningu?m ? mais santo por n?o ter dado "uma queca" antes de casar. Mas Jesus tamb?m c? andou e deixou-nos um exemplo de santidade que devemos seguir e a ele, somente, prestamos contas (...).
David Emanuel da Silva Cameira
Caro David,
em bom dia te respondo - terminei a leitura do "Ensaio sobre o amor humano" de Jean Guitton, que desde j? recomendo.
Com o texto de h? tr?s semanas queria deixar claro o meu desagrado com a forma amputada com que os evang?licos pegam no corpo da castidade. Como era vis?vel nas minhas linhas, a virgindade parece-me uma quest?o de bom-senso. E dificilmente entendo o trabalho pastoral sem ele. Nessa mat?ria a frase que dizia que n?o era mat?ria de p?lpito ? ret?rica ao servi?o da ideia. Lamento que tantos evang?licos, t?o acostumados a contorcionismos apolog?ticos para prevenir que as Escrituras n?o amachuquem as suas elaboradas concep??es teol?gicas, percam a elasticidade para todos os outros escritos.
Porque gosto de usar a cosmovis?o crist? por dentro das cal?as considero que devemos ser mais lentos a desfraldar bandeiras. Custa-me a redu??o que se faz da castidade ? aus?ncia de c?pula. S? uma vis?o t?o estreita de um valor espiritual nos pode transferir o perigoso sentimento de virtude pr?pria.
Os adolescentes evang?licos pouco precisam do Manual Para A Sobreviv?ncia ? Penetra??o Fortuita. Se os ensinarmos a sobreviver sem telem?vel j? ser? um subs?dio valioso contra uma perspectiva t?o material e ensimesmada da exist?ncia. Quando se quer vender a virgindade aos adolescentes como se fosse um novo toque polif?nico, h? que ter cuidado. N?o vamos n?s ficar sem rede.
Tiago de Oliveira Cavaco
sexta-feira, fevereiro 06, 2004
Do editor
Apresenta-se o quinto número d'Os Animais Evangélicos. Nele:
- tento fazer pouco daquilo que perdoo apenas ao meu falecido avô (por ter sido pastor há quase um século)
- o Timóteo Cavaco destrona a última besta do Apocalipse dos evangélicos: o pós-modernismo
- o Samuel Úria distrai-se durante o culto
- o Tiago Branco apresenta-nos o Oleg
- o Samuel Nunes ousa fazer apologética às custas dos seios das estrelas americanas
- e o Paulo Ribeiro chama o ascensor
Deveríamos incluir hoje a resposta do Samuel Nunes ao nosso leitor Boss (do blogue gay Renas e Veados). Por problemas de ordem técnica terá de esperar mais oito dias. Para a semana comentarei também, tentando não abjurar, o muito zurzido artigo sobre a Cruzada da Virgindade.
Muito nos honra e constrange as palavras amáveis que temos recebido dos nossos leitores católicos. O nosso obrigado sincero.
Para a semana os bichos estão de volta.
TOC
O elevador para a Arca de Noé
Apresenta-se o quinto número d'Os Animais Evangélicos. Nele:
- tento fazer pouco daquilo que perdoo apenas ao meu falecido avô (por ter sido pastor há quase um século)
- o Timóteo Cavaco destrona a última besta do Apocalipse dos evangélicos: o pós-modernismo
- o Samuel Úria distrai-se durante o culto
- o Tiago Branco apresenta-nos o Oleg
- o Samuel Nunes ousa fazer apologética às custas dos seios das estrelas americanas
- e o Paulo Ribeiro chama o ascensor
Deveríamos incluir hoje a resposta do Samuel Nunes ao nosso leitor Boss (do blogue gay Renas e Veados). Por problemas de ordem técnica terá de esperar mais oito dias. Para a semana comentarei também, tentando não abjurar, o muito zurzido artigo sobre a Cruzada da Virgindade.
Muito nos honra e constrange as palavras amáveis que temos recebido dos nossos leitores católicos. O nosso obrigado sincero.
Para a semana os bichos estão de volta.
TOC
O elevador para a Arca de Noé
quinta-feira, fevereiro 05, 2004
O cura temeroso
Um estimado pastor baptista da capital, com idade para gostar dos Pink Floyd, lamentava-se por um jornal tão consagrado quanto o Semeador Baptista possuir uma coluna fixa sobre cinema. Ora, nessas escassas linhas da última página aproveito o pretexto da sétima arte para escrever sobre tudo menos filmes. Pretendo aqui homenagear os pacientes leitores que já o perceberam há muito e, consequentemente, tentar denegrir com diplomacia o raciocínio do sacerdote assustado.
Desde a infância que me familiarizei com os tótens perante os quais os índios do Lucky Luke se dobravam. Nesse gesto se simbolizava um temor em que a matéria ocupava um lugar fundamental. Não me passa pela cabeça comparar a fé cristã com tão curvilínea liturgia. Por isso seria capaz de ter na minha prateleira de recuerdos inúteis um Buda sorridente ou uma Virgem chorosa, não fosse eu púdico a tentar disfarçar a minha tenebrosa e ocasional vocação de turista. Seriam apenas bonecos, como tantos outros. Sem precisar de ser benzidos ou exorcizados ou, ainda mais gravemente, levados a sério.
O ancestral temor em relação ao cinema resulta de uma bizarra actualização puritana da caça às colunas dobradas dos peles-vermelhas. Que acaba paradoxalmente perante o mesmo ídolo - o da crença supersticiosa que o mal habita na imagem. Na coisa. Na substância. Na molécula. Creio firmemente que quanto mais os cristãos perdem tempo com telescópios das tele-vendas para encontrar o pecado nas manifestações externas do mundo o mais se afastam daquela tese simples mas certeira do evangelho. Que coloca a semente da maldade no próprio coração do homem.
Não me passa pela cabeça tentar persuadir aquele reverendo vigilante a converter-se à cinefilia. Ainda menos afirmar que todos devemos gastar muito tempo em salas de projecção. Cada um usa a frigideira que quiser para cozinhar as carnes sacrificadas aos ídolos.
Tiago de Oliveira Cavaco
Um estimado pastor baptista da capital, com idade para gostar dos Pink Floyd, lamentava-se por um jornal tão consagrado quanto o Semeador Baptista possuir uma coluna fixa sobre cinema. Ora, nessas escassas linhas da última página aproveito o pretexto da sétima arte para escrever sobre tudo menos filmes. Pretendo aqui homenagear os pacientes leitores que já o perceberam há muito e, consequentemente, tentar denegrir com diplomacia o raciocínio do sacerdote assustado.
Desde a infância que me familiarizei com os tótens perante os quais os índios do Lucky Luke se dobravam. Nesse gesto se simbolizava um temor em que a matéria ocupava um lugar fundamental. Não me passa pela cabeça comparar a fé cristã com tão curvilínea liturgia. Por isso seria capaz de ter na minha prateleira de recuerdos inúteis um Buda sorridente ou uma Virgem chorosa, não fosse eu púdico a tentar disfarçar a minha tenebrosa e ocasional vocação de turista. Seriam apenas bonecos, como tantos outros. Sem precisar de ser benzidos ou exorcizados ou, ainda mais gravemente, levados a sério.
O ancestral temor em relação ao cinema resulta de uma bizarra actualização puritana da caça às colunas dobradas dos peles-vermelhas. Que acaba paradoxalmente perante o mesmo ídolo - o da crença supersticiosa que o mal habita na imagem. Na coisa. Na substância. Na molécula. Creio firmemente que quanto mais os cristãos perdem tempo com telescópios das tele-vendas para encontrar o pecado nas manifestações externas do mundo o mais se afastam daquela tese simples mas certeira do evangelho. Que coloca a semente da maldade no próprio coração do homem.
Não me passa pela cabeça tentar persuadir aquele reverendo vigilante a converter-se à cinefilia. Ainda menos afirmar que todos devemos gastar muito tempo em salas de projecção. Cada um usa a frigideira que quiser para cozinhar as carnes sacrificadas aos ídolos.
Tiago de Oliveira Cavaco
[Sem título]
Nos últimos dez anos, em particular, as “elites evangélicas” do nosso país e de outros têm-se deliciado a discutir o chamado Pós-modernismo. Das vezes que me tenho pronunciado sobre o tema, tenho tentado fazê-lo com uma certa moderação e não embarcando facilmente nos discursos catastrofistas e apocalípticos que alguns elegeram como mote.
Na verdade, toda esta conversa de que estamos a entra numa nova fase da história, numa nova “Idade” é um demonstração clara de que, afinal, ainda vivemos na Modernidade! Por essa razão procuramos ter as coisas tão estruturadas e sistematizadas. Arrisco dizer que a Pós-modernidade não é mais do que o "canto de cisne" da Modernidade. Continuando na linguagem simbólica poderá também ser a atraente "borboleta" resultante da "lagarta" moderna incipiente, tendo passado pela indefinida "crisálida" moderna e exacerbadamente racionalista.
A Pós-modernidade, se tem existência própria, será mais um estilo de vida do que propriamente uma escola de pensamento com agenda e motivações próprias. É muito provavelmente o "fruto maduro" que cai da "árvore da modernidade".
O pendor fortemente técnico, pragmático e fundamentalmente utilitarista do final da época moderna não consegue ser abalado pela Pós-modernidade, o que pode explicar a surpreendente procura de experiências de cariz espiritual, com um carácter místico muito marcado, mas de natureza fundamentalmente subjectiva e pessoal, o que se integra nesta visão utilitarista do fim da modernidade.
Assim, esta espiritualidade não é fundacional e sustentada em valores estruturantes, externos ao próprio homem (transcendentes, sobrenaturais), mas é tão só a satisfação da secura espiritual a que o homem do fim da Modernidade ficou sujeito.
Isto claramente demonstra que se verifica um contínuo entre a Modernidade e a Pós-modernidade, o que confirma a saturação na proposição de pensamentos verdadeiramente inovadores nos tempos que estamos a viver.
Sem percebermos completamente porquê, a visão mecanicista e tão duramente objectiva do universo moderno é levada a um extremo racionalista que explode metamorfoseando-se num subjectivismo generalizado que, porém, continua a manter o princípio sagrado da Modernidade adulta: o homem como medida de si próprio.
No fundo, a Pós-modernidade pode estar a dar crédito à máxima de que "os extremos tocam-se" pois a sua rejeição visível dos princípios universalistas e fixos da ciência moderna, está a tornar-se, ela própria num princípio demasiado abrangente e que começa a ser atrofiante, pois recusa-se a admitir outras alternativas que não sejam subjectivas em si mesmas. Não será esta mais uma herança da Modernidade? Um certo tipo de "ditadura intelectual", agora vestida com a pele da tolerância e do subjectivo? A espiritualidade como forma de experimentar e viver um corpo de doutrinas e convicções, pode-se afinal ter transformado na razão de ser de uma existência que procura explicar tudo aquilo que somos no contexto exclusivo em que vivemos.
Timóteo Cavaco
Nos últimos dez anos, em particular, as “elites evangélicas” do nosso país e de outros têm-se deliciado a discutir o chamado Pós-modernismo. Das vezes que me tenho pronunciado sobre o tema, tenho tentado fazê-lo com uma certa moderação e não embarcando facilmente nos discursos catastrofistas e apocalípticos que alguns elegeram como mote.
Na verdade, toda esta conversa de que estamos a entra numa nova fase da história, numa nova “Idade” é um demonstração clara de que, afinal, ainda vivemos na Modernidade! Por essa razão procuramos ter as coisas tão estruturadas e sistematizadas. Arrisco dizer que a Pós-modernidade não é mais do que o "canto de cisne" da Modernidade. Continuando na linguagem simbólica poderá também ser a atraente "borboleta" resultante da "lagarta" moderna incipiente, tendo passado pela indefinida "crisálida" moderna e exacerbadamente racionalista.
A Pós-modernidade, se tem existência própria, será mais um estilo de vida do que propriamente uma escola de pensamento com agenda e motivações próprias. É muito provavelmente o "fruto maduro" que cai da "árvore da modernidade".
O pendor fortemente técnico, pragmático e fundamentalmente utilitarista do final da época moderna não consegue ser abalado pela Pós-modernidade, o que pode explicar a surpreendente procura de experiências de cariz espiritual, com um carácter místico muito marcado, mas de natureza fundamentalmente subjectiva e pessoal, o que se integra nesta visão utilitarista do fim da modernidade.
Assim, esta espiritualidade não é fundacional e sustentada em valores estruturantes, externos ao próprio homem (transcendentes, sobrenaturais), mas é tão só a satisfação da secura espiritual a que o homem do fim da Modernidade ficou sujeito.
Isto claramente demonstra que se verifica um contínuo entre a Modernidade e a Pós-modernidade, o que confirma a saturação na proposição de pensamentos verdadeiramente inovadores nos tempos que estamos a viver.
Sem percebermos completamente porquê, a visão mecanicista e tão duramente objectiva do universo moderno é levada a um extremo racionalista que explode metamorfoseando-se num subjectivismo generalizado que, porém, continua a manter o princípio sagrado da Modernidade adulta: o homem como medida de si próprio.
No fundo, a Pós-modernidade pode estar a dar crédito à máxima de que "os extremos tocam-se" pois a sua rejeição visível dos princípios universalistas e fixos da ciência moderna, está a tornar-se, ela própria num princípio demasiado abrangente e que começa a ser atrofiante, pois recusa-se a admitir outras alternativas que não sejam subjectivas em si mesmas. Não será esta mais uma herança da Modernidade? Um certo tipo de "ditadura intelectual", agora vestida com a pele da tolerância e do subjectivo? A espiritualidade como forma de experimentar e viver um corpo de doutrinas e convicções, pode-se afinal ter transformado na razão de ser de uma existência que procura explicar tudo aquilo que somos no contexto exclusivo em que vivemos.
Timóteo Cavaco
[Sem Título]
Na minha Igreja falava-se de Pedro quando deixei a distracção guiar-me os olhos para dois jarrões lá à frente. Já estão ali há anos mas subitamente ganhei consciência de que lá continuavam a decorar o espaço entre o púlpito e o órgão. Nem sempre passaram despercebidos. Aliás, quem nos visita provavelmente permite que lhe escapem segundos de atenção para reparar nas duas peças decorativas que, de muito banais, têm uma pequena curiosidade concernente à disposição: O jarro mais largo está assente de uma forma normalíssima ao lado do mais estreito, que se encontra propositadamente caído, estendido no chão com a abertura voltada para as pessoas. Quando dizia que nem sempre passaram despercebidos remontava à altura em que eram novidade: aos reparos somavam-se tentativas de equilibrar em pé o jarrão caído. Sendo uma peça normalíssima, sem defeito aparente, é completamente possível apoia-la na base como mandam “as regras”, mas assim nunca permaneceu por mais do que uns escassos minutos. “Deixem estar isso deitado! É mesmo assim”, “Fica melhor um em pé e outro não! Fica mais giro”, “Larguem isso, é para ficar no chão. É decoração”. Eu fiz parte dos que apreciaram originalmente a disposição invulgar daquelas grandes peças. Faço parte hoje dos que se esqueceram das banais peripécias que os rodearam em tempos. Mantenho, ainda assim, uma ligação muito peculiar com tão desinteressantes objectos.*
*Ás vezes é difícil escapar à própria imaginação. Às vezes é difícil não vaguear pelas formas e pelas imagens:
Falava-se de Jonas e o jarrão no chão, com a boca virada para nós, era um peixe enorme que o tragava.
Um jarro em pé, inchado, imponente, ensimesmado. Um jarro deitado, esguio e humilde, reverente. Um fariseu e um publicano oravam.
Babel era erigida ao lado de um apocalíptico cálice derrubado.
Um pequeno Golias tombava perante o enorme David.
Jesus baixava-se e lavava os pés a um discípulo.
Não sei o que continha o jarro em pé. Do outro brotava água de um poço de Samaria. Falo de barro que falava comigo. O seu teatro abstracto veio-me à memória, mas isso a ninguém interessa. Falo de barro, escrevo sobre dois meros jarrões mas não me vou tentar com analogias. Quero desmarcar-nos de comparações. Não somos como aquelas peças; não podemos ficar no chão e alegar a decoração como um bom motivo para assim permanecermos. Não podemos igualmente ser um espelho subjectivo das escrituras, ser uma leitura apagada do evangelho para os outros decifrarem.
Talvez se chegue a uma sensação de perda de tempo no final deste texto. Afinal a quem pode interessar a ladainha dos jarrões? Contudo não me arrependo de a ter escrito, assumo mesmo que é tudo o que hoje tenho para oferecer. Por muito boa intenção que possua, nunca conseguirei ser tão bom teólogo como um particular par de jarros. Escuto-os num banco mais à frente de cada vez que uma Bíblia se abre. Chamem-lhes “sarças-ardentes” da loja dos 300. Não são imagens de escultura e apenas se tornam indispensáveis no compensar da minha falta de atenção. Renego metodologias e esquemas associativos para accionar a minha Fé, mas antes que todos se calem e falem as pedras, que me digam os jarrões para falar eu.
Pedro negava Jesus pela terceira vez. Quando o galo cantou eu estava distraído a olhar para um jarrão caído ao lado de outro em pé.
Samuel Úria
Na minha Igreja falava-se de Pedro quando deixei a distracção guiar-me os olhos para dois jarrões lá à frente. Já estão ali há anos mas subitamente ganhei consciência de que lá continuavam a decorar o espaço entre o púlpito e o órgão. Nem sempre passaram despercebidos. Aliás, quem nos visita provavelmente permite que lhe escapem segundos de atenção para reparar nas duas peças decorativas que, de muito banais, têm uma pequena curiosidade concernente à disposição: O jarro mais largo está assente de uma forma normalíssima ao lado do mais estreito, que se encontra propositadamente caído, estendido no chão com a abertura voltada para as pessoas. Quando dizia que nem sempre passaram despercebidos remontava à altura em que eram novidade: aos reparos somavam-se tentativas de equilibrar em pé o jarrão caído. Sendo uma peça normalíssima, sem defeito aparente, é completamente possível apoia-la na base como mandam “as regras”, mas assim nunca permaneceu por mais do que uns escassos minutos. “Deixem estar isso deitado! É mesmo assim”, “Fica melhor um em pé e outro não! Fica mais giro”, “Larguem isso, é para ficar no chão. É decoração”. Eu fiz parte dos que apreciaram originalmente a disposição invulgar daquelas grandes peças. Faço parte hoje dos que se esqueceram das banais peripécias que os rodearam em tempos. Mantenho, ainda assim, uma ligação muito peculiar com tão desinteressantes objectos.*
*Ás vezes é difícil escapar à própria imaginação. Às vezes é difícil não vaguear pelas formas e pelas imagens:
Falava-se de Jonas e o jarrão no chão, com a boca virada para nós, era um peixe enorme que o tragava.
Um jarro em pé, inchado, imponente, ensimesmado. Um jarro deitado, esguio e humilde, reverente. Um fariseu e um publicano oravam.
Babel era erigida ao lado de um apocalíptico cálice derrubado.
Um pequeno Golias tombava perante o enorme David.
Jesus baixava-se e lavava os pés a um discípulo.
Não sei o que continha o jarro em pé. Do outro brotava água de um poço de Samaria. Falo de barro que falava comigo. O seu teatro abstracto veio-me à memória, mas isso a ninguém interessa. Falo de barro, escrevo sobre dois meros jarrões mas não me vou tentar com analogias. Quero desmarcar-nos de comparações. Não somos como aquelas peças; não podemos ficar no chão e alegar a decoração como um bom motivo para assim permanecermos. Não podemos igualmente ser um espelho subjectivo das escrituras, ser uma leitura apagada do evangelho para os outros decifrarem.
Talvez se chegue a uma sensação de perda de tempo no final deste texto. Afinal a quem pode interessar a ladainha dos jarrões? Contudo não me arrependo de a ter escrito, assumo mesmo que é tudo o que hoje tenho para oferecer. Por muito boa intenção que possua, nunca conseguirei ser tão bom teólogo como um particular par de jarros. Escuto-os num banco mais à frente de cada vez que uma Bíblia se abre. Chamem-lhes “sarças-ardentes” da loja dos 300. Não são imagens de escultura e apenas se tornam indispensáveis no compensar da minha falta de atenção. Renego metodologias e esquemas associativos para accionar a minha Fé, mas antes que todos se calem e falem as pedras, que me digam os jarrões para falar eu.
Pedro negava Jesus pela terceira vez. Quando o galo cantou eu estava distraído a olhar para um jarrão caído ao lado de outro em pé.
Samuel Úria
Quando dá jeito
Conheci há pouco tempo o Oleg. Jovem e robusto, tinha um olhar distante e uma expressão desconfortavelmente incaracterística. Depois de conhecer a sua história consegui perceber melhor o misto de revolta, sofrimento e resignação que do seu olhar parecia transparecer. O Oleg é Pastor Evangélico e Director de um Instituto Bíblico na Ucrânia mas veio para Portugal trabalhar como escravo para a máfia do seu país. É que o Oleg teve com o seu carro, um acidente em que danificou um jipe pertencente aos patrões da máfia local que, com toda a impunidade de que gozam condenaram o Oleg a ter de pagar o danos calculados por eles em 25 000 dólares americanos, uma fortuna num país em que um médico ganha cerca de 50 dólares por mês. Se o Oleg não pagar esta quantia, matam-lhe a família primeiro, e depois a ele. Faz cerca de um ano e meio que o Oleg deixou a sua família e a sua profissão para trabalhar cá, onde espera juntar dentro do prazo imposto o dinheiro que lhe resta.
Existem milhares de histórias destas. Ou melhor, existem milhares de pessoas com a vida nestes trapos. E quem rasga em trapos a vida destas pessoas são outras pessoas. Proxenetas, traficantes, violadores ou raptores são apenas pessoas, com a vida tão frágil como a nossa, mas que simplesmente destroem a nossa vida ou nos roubam a vida que queríamos viver. Todos estamos sujeitos a que nos aconteça algo assim. Todos estamos sujeitos a nos cruzarmos, ou pior, a termos de conviver com pessoas, que por vezes com artes perfeitamente legais podem fazer desmoronar quase tudo aquilo que valorizamos na nossa vida. Nós e eles, apenas pessoas.
Não consigo deixar de pensar em quantas vezes seria para algumas das vítimas tão simples resolver o seu problema. Quantas vezes não seria tão simples acabar com a vida de quem está a prejudicar a nossa. Vivemos porém, num país em que a maioria das pessoas não aprova esta via. Em Portugal, não aplicamos a pena de morte, nem colaboramos com países que a aplicam e é por isso que não repatriamos reclusos para países onde sabemos que vão ser executados. Tenta-se impedir o mal, mas protege-se a vida. De todos.
Quando se discute o direito de abortar, não consigo também deixar de reparar na semelhança destas situações. Ao partilhar as minhas reflexões sobre este assunto, tentarei fugir ao tom sensacionalista e à impetuosidade característica dos discursos radicalizantes, dos pregões e das manifestações. Tudo isso nos ensurdece e ajuda a escamotear o facto de estarmos perante um assunto delicado, eticamente denso, e de repercussões muito profundas em muitas vidas.
A meu ver, os mais fortes argumentos de entre os usados para defender a descriminalização da prática do aborto são: a pretensão de que o feto não é ainda um ser humano, (logo não se trata de homicídio), e o direito da mulher a decidir sobre o rumo da sua vida e do seu corpo.
Acerca do primeiro; parece-me lógico que tenhamos de traçar algures a linha que define o momento a partir do qual existe um ser humano. Parece-me no entanto, que não faz sentido traçar essa linha com base na existência órgãos, ou elementos de viabilidade biológica. A diferenciação de tecidos, a existência ou não de sistema nervoso central que permita sentir dor, a existência ou não de batimentos cardíacos, o desenvolvimento do cérebro ou dos sistemas vitais são frequentemente evocados para argumentar a inviabilidade biológica, a ausência de vida independente e alegar portanto que não se trata de um ser humano completo. Mas importa perguntar se existe alguma criança que aos doze meses, (por exemplo) tenha uma vida independente. Importa perguntar se uma criança à qual não se dá alimento, protecção e agasalho não é tão inviável como um feto sem batimentos cardíacos. A ausência de sistema nervoso central é tão letal como a ausência de cuidados neonatais. Em termos de dependência esta não acaba no nascimento, nem nada que se pareça. Só votamos aos dezoito anos!
Não me parece que faça portanto sentido afirmar, que não existe um ser humano antes de algum deste caracteres aparecer. Algumas das características do ser humano, muitas pessoas nunca chegam a ter, mas não é por isso que não são seres humanos. Desde o momento da fecundação que somos completos, seres humanos em potencial, biologicamente dependentes da mãe durante nove meses, educacionalmente dependentes durante muitos anos, e afectivamente dependentes a vida toda. A mórula, o embrião, o feto são de facto uma vida, e o aborto é de facto uma morte para essa vida.
O segundo argumento assenta no direito à liberdade da mulher. À liberdade de terminar com essa vida que lhe vai exigir cuidados, riscos, despesas e dor. Ter um filho exigiria uma dedicação, que não estamos dispostos, ou não nos sentimos preparados para ter. Seria demasiado prejudicial para a vida que planeávamos ter, e assim, optamos por acabar com essa vida antes que ela seja muito evidente. Terminamos uma vida que está escondida, para podermos continuar com a nossa. Para não nos sentirmos mal por termos dado o filho para adopção. Para nunca termos visto a cara dele, nem corrermos o risco de nos afeiçoarmos. Para ninguém poder dizer que não nos interessámos. Para ser mais fácil esquecer. Para podermos não usar contracepção, se não nos apetecer. Para ser mais fácil para toda a gente. Menos para aquela vida que acaba.
Todas as éticas humanas são utilitaristas e virá um referendo em que a maioria escolherá a uma ética. Pretende-se que a lei seja justa para as mulheres. Uma lei justa, defenderia os direitos laborais das grávidas e das mães, tentaria garantir assistência e condições de vida. Educaria, formaria e responsabilizaria a todos.
Mas a lei da conveniência, a que faz um by-pass ao valor da vida, só nos ensina a assobiar para o lado.
Parece que ajuda, por ser mais fácil, mas não é uma ajuda perversa?
Tiago Branco
Conheci há pouco tempo o Oleg. Jovem e robusto, tinha um olhar distante e uma expressão desconfortavelmente incaracterística. Depois de conhecer a sua história consegui perceber melhor o misto de revolta, sofrimento e resignação que do seu olhar parecia transparecer. O Oleg é Pastor Evangélico e Director de um Instituto Bíblico na Ucrânia mas veio para Portugal trabalhar como escravo para a máfia do seu país. É que o Oleg teve com o seu carro, um acidente em que danificou um jipe pertencente aos patrões da máfia local que, com toda a impunidade de que gozam condenaram o Oleg a ter de pagar o danos calculados por eles em 25 000 dólares americanos, uma fortuna num país em que um médico ganha cerca de 50 dólares por mês. Se o Oleg não pagar esta quantia, matam-lhe a família primeiro, e depois a ele. Faz cerca de um ano e meio que o Oleg deixou a sua família e a sua profissão para trabalhar cá, onde espera juntar dentro do prazo imposto o dinheiro que lhe resta.
Existem milhares de histórias destas. Ou melhor, existem milhares de pessoas com a vida nestes trapos. E quem rasga em trapos a vida destas pessoas são outras pessoas. Proxenetas, traficantes, violadores ou raptores são apenas pessoas, com a vida tão frágil como a nossa, mas que simplesmente destroem a nossa vida ou nos roubam a vida que queríamos viver. Todos estamos sujeitos a que nos aconteça algo assim. Todos estamos sujeitos a nos cruzarmos, ou pior, a termos de conviver com pessoas, que por vezes com artes perfeitamente legais podem fazer desmoronar quase tudo aquilo que valorizamos na nossa vida. Nós e eles, apenas pessoas.
Não consigo deixar de pensar em quantas vezes seria para algumas das vítimas tão simples resolver o seu problema. Quantas vezes não seria tão simples acabar com a vida de quem está a prejudicar a nossa. Vivemos porém, num país em que a maioria das pessoas não aprova esta via. Em Portugal, não aplicamos a pena de morte, nem colaboramos com países que a aplicam e é por isso que não repatriamos reclusos para países onde sabemos que vão ser executados. Tenta-se impedir o mal, mas protege-se a vida. De todos.
Quando se discute o direito de abortar, não consigo também deixar de reparar na semelhança destas situações. Ao partilhar as minhas reflexões sobre este assunto, tentarei fugir ao tom sensacionalista e à impetuosidade característica dos discursos radicalizantes, dos pregões e das manifestações. Tudo isso nos ensurdece e ajuda a escamotear o facto de estarmos perante um assunto delicado, eticamente denso, e de repercussões muito profundas em muitas vidas.
A meu ver, os mais fortes argumentos de entre os usados para defender a descriminalização da prática do aborto são: a pretensão de que o feto não é ainda um ser humano, (logo não se trata de homicídio), e o direito da mulher a decidir sobre o rumo da sua vida e do seu corpo.
Acerca do primeiro; parece-me lógico que tenhamos de traçar algures a linha que define o momento a partir do qual existe um ser humano. Parece-me no entanto, que não faz sentido traçar essa linha com base na existência órgãos, ou elementos de viabilidade biológica. A diferenciação de tecidos, a existência ou não de sistema nervoso central que permita sentir dor, a existência ou não de batimentos cardíacos, o desenvolvimento do cérebro ou dos sistemas vitais são frequentemente evocados para argumentar a inviabilidade biológica, a ausência de vida independente e alegar portanto que não se trata de um ser humano completo. Mas importa perguntar se existe alguma criança que aos doze meses, (por exemplo) tenha uma vida independente. Importa perguntar se uma criança à qual não se dá alimento, protecção e agasalho não é tão inviável como um feto sem batimentos cardíacos. A ausência de sistema nervoso central é tão letal como a ausência de cuidados neonatais. Em termos de dependência esta não acaba no nascimento, nem nada que se pareça. Só votamos aos dezoito anos!
Não me parece que faça portanto sentido afirmar, que não existe um ser humano antes de algum deste caracteres aparecer. Algumas das características do ser humano, muitas pessoas nunca chegam a ter, mas não é por isso que não são seres humanos. Desde o momento da fecundação que somos completos, seres humanos em potencial, biologicamente dependentes da mãe durante nove meses, educacionalmente dependentes durante muitos anos, e afectivamente dependentes a vida toda. A mórula, o embrião, o feto são de facto uma vida, e o aborto é de facto uma morte para essa vida.
O segundo argumento assenta no direito à liberdade da mulher. À liberdade de terminar com essa vida que lhe vai exigir cuidados, riscos, despesas e dor. Ter um filho exigiria uma dedicação, que não estamos dispostos, ou não nos sentimos preparados para ter. Seria demasiado prejudicial para a vida que planeávamos ter, e assim, optamos por acabar com essa vida antes que ela seja muito evidente. Terminamos uma vida que está escondida, para podermos continuar com a nossa. Para não nos sentirmos mal por termos dado o filho para adopção. Para nunca termos visto a cara dele, nem corrermos o risco de nos afeiçoarmos. Para ninguém poder dizer que não nos interessámos. Para ser mais fácil esquecer. Para podermos não usar contracepção, se não nos apetecer. Para ser mais fácil para toda a gente. Menos para aquela vida que acaba.
Todas as éticas humanas são utilitaristas e virá um referendo em que a maioria escolherá a uma ética. Pretende-se que a lei seja justa para as mulheres. Uma lei justa, defenderia os direitos laborais das grávidas e das mães, tentaria garantir assistência e condições de vida. Educaria, formaria e responsabilizaria a todos.
Mas a lei da conveniência, a que faz um by-pass ao valor da vida, só nos ensina a assobiar para o lado.
Parece que ajuda, por ser mais fácil, mas não é uma ajuda perversa?
Tiago Branco
O Seio da JJ e a Fuga de Deus
A reacção extremada e fundamentalista, à visão do seio de Janet Jackson (e que seio!), fizeram-me pensar na expressão de João Calvino: “coram Deo” (Institutas I:1.2). A frase completa é “cor et res coram Deo” e significa literalmente, “coração e objecto perante Deus”. Os pensadores mais Calvinistas têm usado esta ideia para referir que todos os objectos do mundo visível, assim como o sujeito dessa visão precisam de ser vistos em relação a Deus. Aqui não vou contra o pré-suposicionalismo. Ou seja, toda a epistemologia cristã afirma a priori que toda a acção humana deriva significado do acto criador inicial do Deus Eterno (L’Eternel, dizem os Franceses). Não há factos desprovidos de significado, nenhum intérprete é autónomo, e todo o conhecimento é ético-relacional (daí estarem condenados ao vazio existencial, os ateus). Nesta linha de pensamento, já Cristo dizia que debater certas questões com os incrédulos, era “atirar pérolas a porcos” (Mateus 7:6). Porquê? As razões são quatro:
1 – Para o cristão a realidade divide-se entre o Deus independente e o universo criado, metafisicamente distinto d’Ele, mas ao mesmo tempo eticamente responsável para com Deus. Se os factos do universo são reais é porque Deus os fez assim, se são racionais é porque Deus os interpretou primeiro. Assim, a ligação directa para o conhecimento vem pela revelação. E o método para atingir esse conhecimento consiste em “ser um sonhador dos sonhos de Deus e pensar os pensamentos de Deus, de acordo com Deus” (Van Til, A Christian Theory of Knowledge).
2 – logicamente fica também negado todo e qualquer conhecimento pela racionalidade abstracta. Dentro do pensamento cristão o ser humano coloca-se holisticamente diante de Deus. Todo ele! Sem tirar nem por: corpo e alma; mente, vontade e emoção, a que a Bíblia chama de coração (na verdade, no que toca a Deus, o coração tem apenas a suas próprias razões!). E todas as acções do homem, interdependentes deste triângulo relacional (mente + vontade + emoção), serão sempre coram Deo.
3 – Se tudo deriva significado de Deus, então não existem factos neutros. O sabor duma maçã e a soma 2+2 = 4, têm cores éticas. O observador cristão analisa cada facto e cada homem, pelo prisma das 3 matizes da peregrinação cristã: a criação perfeita, saída das mãos de Deus; a rebelião do Homem; e a redenção operada por Cristo. Aqui, alguém argumentará, que a redenção completa ainda não chegou. É verdade. “Toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora” (Romanos 8:22). Todavia, o cristão já tem as bênçãos do novo relacionamento com o criador-referencial-ético-relacional, e goza das “primícias” (Romanos (8:23) ao aplicar a redenção à sua epistemologia.
4 – O cristão está numa posição oposta àqueles que se recusam a ver os factos, e a interpretá-los num contexto coram Deo. O cristão está num patamar diferente do não-cristão (ver Rom. 1:21; 1 Cor. 1:21; 3:19; Calvino, Institutas II:3.1). As duas excepções são categóricas, porque por um lado, a supressão do conhecimento de Deus trai a existência prévia desse conhecimento, e por outro lado, a tentativa é frustrada, porque não chega a erradicar o conhecimento de Deus. A dupla terrível de excepções aparece em Romanos 1:19-25, e resume-se à criação e ao sensus deitatis, sentido da divindade. Calvino chega a dizer que mesmo o pecador não consegue “obliterar da sua mente” o sensus deitatis (Institutas, I:3.1).
Conclusão: o cristão que quiser comunicar eficazmente, deve estabelecer com o descrente que a supressão do conhecimento de Deus é um dilema ético, e não apenas intelectual ou do âmbito do sintoísmo (argumentação do tipo: “eu sinto que Deus existe”; “Cristo é verdade porque me dá paz e eu sinto isso”). O cristão terá de demonstrar que o pensamento do não-cristão, é uma “fuga de Deus”. E, assim poderá afirmar o seguinte:
a) toda a epistemologia construída a partir duma “fuga de Deus” leva ao abismo existencial.
b) tal atitude é categorizada como pecado. O Evangelho manifesta Cristo, precisamente como o redentor dessa dimensão acéfala do homem. A escolha de Aldous Huxley que diante do significado da vida, preferiu a ausência de significado, “pois não queria prestar contas diante de Deus”, é perfeito suicídio espiritual.
Assim, os fundamentalistas americanos, quando se deparassem com um seio desnudado, fariam bem em pensar no coram Deo de Calvino. Pelo menos não levariam a coisa tão “a peito”!
Textos de apoio: Institutas de João Calvino; VanTil, A Christian Theory of Knowledge; C.S.Lewis, They Asked for a Paper.
Samuel Nunes
A reacção extremada e fundamentalista, à visão do seio de Janet Jackson (e que seio!), fizeram-me pensar na expressão de João Calvino: “coram Deo” (Institutas I:1.2). A frase completa é “cor et res coram Deo” e significa literalmente, “coração e objecto perante Deus”. Os pensadores mais Calvinistas têm usado esta ideia para referir que todos os objectos do mundo visível, assim como o sujeito dessa visão precisam de ser vistos em relação a Deus. Aqui não vou contra o pré-suposicionalismo. Ou seja, toda a epistemologia cristã afirma a priori que toda a acção humana deriva significado do acto criador inicial do Deus Eterno (L’Eternel, dizem os Franceses). Não há factos desprovidos de significado, nenhum intérprete é autónomo, e todo o conhecimento é ético-relacional (daí estarem condenados ao vazio existencial, os ateus). Nesta linha de pensamento, já Cristo dizia que debater certas questões com os incrédulos, era “atirar pérolas a porcos” (Mateus 7:6). Porquê? As razões são quatro:
1 – Para o cristão a realidade divide-se entre o Deus independente e o universo criado, metafisicamente distinto d’Ele, mas ao mesmo tempo eticamente responsável para com Deus. Se os factos do universo são reais é porque Deus os fez assim, se são racionais é porque Deus os interpretou primeiro. Assim, a ligação directa para o conhecimento vem pela revelação. E o método para atingir esse conhecimento consiste em “ser um sonhador dos sonhos de Deus e pensar os pensamentos de Deus, de acordo com Deus” (Van Til, A Christian Theory of Knowledge).
2 – logicamente fica também negado todo e qualquer conhecimento pela racionalidade abstracta. Dentro do pensamento cristão o ser humano coloca-se holisticamente diante de Deus. Todo ele! Sem tirar nem por: corpo e alma; mente, vontade e emoção, a que a Bíblia chama de coração (na verdade, no que toca a Deus, o coração tem apenas a suas próprias razões!). E todas as acções do homem, interdependentes deste triângulo relacional (mente + vontade + emoção), serão sempre coram Deo.
3 – Se tudo deriva significado de Deus, então não existem factos neutros. O sabor duma maçã e a soma 2+2 = 4, têm cores éticas. O observador cristão analisa cada facto e cada homem, pelo prisma das 3 matizes da peregrinação cristã: a criação perfeita, saída das mãos de Deus; a rebelião do Homem; e a redenção operada por Cristo. Aqui, alguém argumentará, que a redenção completa ainda não chegou. É verdade. “Toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora” (Romanos 8:22). Todavia, o cristão já tem as bênçãos do novo relacionamento com o criador-referencial-ético-relacional, e goza das “primícias” (Romanos (8:23) ao aplicar a redenção à sua epistemologia.
4 – O cristão está numa posição oposta àqueles que se recusam a ver os factos, e a interpretá-los num contexto coram Deo. O cristão está num patamar diferente do não-cristão (ver Rom. 1:21; 1 Cor. 1:21; 3:19; Calvino, Institutas II:3.1). As duas excepções são categóricas, porque por um lado, a supressão do conhecimento de Deus trai a existência prévia desse conhecimento, e por outro lado, a tentativa é frustrada, porque não chega a erradicar o conhecimento de Deus. A dupla terrível de excepções aparece em Romanos 1:19-25, e resume-se à criação e ao sensus deitatis, sentido da divindade. Calvino chega a dizer que mesmo o pecador não consegue “obliterar da sua mente” o sensus deitatis (Institutas, I:3.1).
Conclusão: o cristão que quiser comunicar eficazmente, deve estabelecer com o descrente que a supressão do conhecimento de Deus é um dilema ético, e não apenas intelectual ou do âmbito do sintoísmo (argumentação do tipo: “eu sinto que Deus existe”; “Cristo é verdade porque me dá paz e eu sinto isso”). O cristão terá de demonstrar que o pensamento do não-cristão, é uma “fuga de Deus”. E, assim poderá afirmar o seguinte:
a) toda a epistemologia construída a partir duma “fuga de Deus” leva ao abismo existencial.
b) tal atitude é categorizada como pecado. O Evangelho manifesta Cristo, precisamente como o redentor dessa dimensão acéfala do homem. A escolha de Aldous Huxley que diante do significado da vida, preferiu a ausência de significado, “pois não queria prestar contas diante de Deus”, é perfeito suicídio espiritual.
Assim, os fundamentalistas americanos, quando se deparassem com um seio desnudado, fariam bem em pensar no coram Deo de Calvino. Pelo menos não levariam a coisa tão “a peito”!
Textos de apoio: Institutas de João Calvino; VanTil, A Christian Theory of Knowledge; C.S.Lewis, They Asked for a Paper.
Samuel Nunes
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